A PRODUÇÃO DE MEDO COMO FORMA DE CONTROLE

O principal uso social da pandemia foi o de produzir um incontrolável medo do vírus, do outro, do contágio, da doença e, em última instância, da morte o que justificou o fechamento de fronteiras e a adoção de uma série de medidas para controlar a mobilidade da população no interior dos espaços nacionais. Estrangeirxs encarnam a figura dxs outrxs-alheixs, dos corpos racializados que são suspeitos. Em tempos de pandemia, a suspeita se exacerba, como também o medo de que esses corpos alheios sejam vetores de contágio. Em vários países foram registradas formas de xenofobia social e estatal sofridas por certas categorias de migrantes. É o caso da Guatemala, por exemplo, onde tanto o governo quanto a sociedade viram com maus olhos a chegada dos guatemaltecxs contaminados e deportados dos Estados Unidos; ou, no caso do Chile, onde autoridades governamentais associaram o vírus e a sua propagação à comunidade haitiana; ou o argentino, onde “deportações acordadas” foram instauradas para certos turistas como coreanxs e europeus.

O medo durante a pandemia impactou de diferentes maneiras a população em condição de mobilidade humana nas Américas. Se exacerbou principalmente entre migrantes indocumentadxs e/ou solicitantes de asilo. As formas nas quais o medo se materializa são várias, entre elas: o temor a ficar doente e não ter um atendimento; não ter um trabalho digno; não ter o que comer; não ter como pagar o aluguel ou não ter onde morar; que as suas vidas fiquem ainda mais precárias, que os detenham e deportem, ou morrer presos contaminados pela Covid-19. O medo que carregam deriva de políticas xenófobas que os representam como cargas públicas ou que os criminalizam incessantemente. No continente, durante a pandemia, o caso paradigmático, mas não o único, é o dos Estados Unidos. Nesse país, as batidas, detenções e deportações não pararam. A Corte Suprema autorizou deportações de forma expressa e dos residentes legais que tivessem cometido delitos (incluídos delitos menores) nos últimos sete anos. E, além disso, as medidas antimigrantes que o governo Trump já tinha adotado surtiram efeito pois, ao colocar em vigência a “regra de carga pública” que, ainda que não inclua a saúde, acarretou com que migrantes deixassem de procurar atendimento médico por medo a não poder regularizar a sua situação no futuro. Outro caso é o da Colômbia onde a prefeita de Bogotá afirmou que migrantes venezuelanxs eram uma “carga econômica” para o governo da capital. As medidas e afirmações públicas como as anteriores exacerbam o medo entre a população em condição de mobilidade. Por essa razão, muitos migrantes temem buscar ajudas sociais, ser atendidos nos sistemas de saúde e até mesmo denunciar abusos.

 

O medo pode imobilizar e “docilizar” a população ou também detonar estratégias de luta pela vida. É o caso de migrantes detidxs que organizaram greves de fome em prisões nos Estados Unidos e no México porque temem morrer contaminados pela Covid-19, pelas condições insalubres; ou o caso de muitos migrantes irregulares em diversos pontos do continente que, apesar do fechamento das fronteiras e da vigilância, empreenderam retornos – praticamente forçados – a seus lugares de origem, a uma maior precarização da vida, e a continuar sendo violentados pela xenofobia estatal e social.

O conversatório problematizará sobre como a produção do medo, esta velha, mas sempre vigente e renovada forma de controle, operou durante a pandemia e se materializou de diversas maneiras nos espaços nacionais, impactando desproporcionalmente a população em mobilidade. Também se discutirá como a produção do medo, se por um lado pode paralisar e abrandar, por outro pode potencializar respostas sociais que dão conta das formas não sempre perceptíveis que assume a luta migrante no continente.

Em meados de março de 2020, praticamente todos os países do continente declararam emergência sanitária, fecharam suas fronteiras e adotaram uma série de medidas excepcionais para provocar a imobilidade forçada que promete combater o vírus. Foi nesse contexto que mais de 30 pesquisadorxs das Américas, analítica e politicamente interessados ​​no tema da migração, nos reunimos virtualmente e começamos a nos perguntar sobre a situação particular de milhões de migrantes mulheres, homens, crianças e adolescentes, do continente ou de outras latitudes, todos sujeitos em movimento.

E-mail: covid19inmovilidad@gmail.com

Ideia original: Soledad Álvarez Velasco, Universidade de Houston

Coordenação geral: Soledad Álvarez Velasco, University of Houston y Ulla D. Berg, Rutgers University

Pesquisa, sistematização e desenvolvimento de conteúdos: Soledad Álvarez Velasco, University of Houston;  Ulla D. Berg, Rutgers University; Lucía Pérez-Martínez, FLACSO-Ecuador; Mónica Salmon, New School for Social Research; Sebastián León,  Rutgers University.

Coordenação de mapa polifônico: Iréri Ceja Cárdenas: Museo Nacional/ Universidad Federal de Rio de Janeiro

Assessoria do projeto: Nicholas De Genova, Universidad of Houston.

Equipe de tradução espanhol- inglês: 

Soledad Álvarez Velasco, Mónica Salmón, Ulla Berg, Luin Goldring, Tanya Basok, Ingrid Carlson, Gabrielle Cabrera.

Equipe de tradução espanhol- português: 

Iréri Ceja, Gustavo Dias, Gislene Santos, Elisa Colares, Handerson Joseph, Caio Fernandes, María Villarreal.

Design e desenvolvimento da página web: ACHU! Studio; Francisco Hurtado Caicedo, Observatorio Social del Ecuador.

Fotografía: David Gustafsson y Cynthia Briones.

Vídeo: David Gustafsson.

Alguns das e dos pesquisadores deste projeto são membros destes Grupos de Trabalho de CLACSO:

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